arte cultura

entrevista com a ilustradora da página TransLúcida

domingo, março 13, 2016Mari Mendes




Ella Vieira é a autora das ilustrações da página TransLúcida. No dia em que conheci a página não parava de dizer e pensar e expressar de todas as formas possíveis que aquela arte era FODA. Depois de um tempo veio a ideia de conversar com Ella Vieira e convidá-la para essa entrevista que eu amei.

Agradeço muito pela disposição em responder, em me aguentar no pé dela por dias e em ter feito esse desenho lindo para a nossa entrevista.

A história da Ella e de todas as pessoas que não se encaixam nesse sistema binário de gênero devem estar presentes em todos os espaços. À nós, cisgênero, cabe respeitar e conhecer essas pessoas e nunca julgar. Nosso papel é o da empatia e o da contribuição na luta contra a transfobia da maneira como nós pudermos.

Vamos à Ella?




Ella Vieira, ilustradora, artista (trans) não-binária sorocabana. Em outubro de 2015 nasce TransLúcida pra dar vasão ao amor ilustrado, um amor que não cabe numa classificação arbitrária da sociedade. O nome TransLúcida possui uma polissemia poética? O que você esperava comunicar com ele quando o escolheu?

Bem, desde muito cedo eu me expressava pelos meios artísticos, adorava dançar, cantar, criar “coisas”. Lembro de brincar com qualquer coisa, quando minha mãe estava andando comigo pelas ruas e parava pra conversar com alguma amiga “x”, e se eu percebesse que aquilo iria demorar, já olhava pros lados pra ver o que teríamos ali. Brincava com os gravetos, folhas e flores como se fossem seres, e muitas das vezes eu me colocava como se fosse um daqueles elementos que ali era criado, sendo “aquilo” como uma única existência. (Piaget explicaria isso melhor). Eu realmente vivia aquilo [...] Quando desenho sinto que eu me desligo de tudo, os sentimentos vão se dando formas e dando sentido a algo que se refere a mim, de como estou e como sou. Partindo disso, muitxs amigxs que vivenciaram algumas experiências comigo, artísticas ou não, foram me incentivando a divulgar meus trabalhos. Eu não considerava um trabalho (pura ignorância minha), mas em algum momento senti a necessidade de começar a divulgar, não necessariamente como uma pagina de trabalho, e sim um local onde outras pessoas pudessem ver e sentir o que sentir e o que enxergar, sem pretensões. Mas confesso que muitos trabalhos legais surgiram com a criação da página.
Morei em Salvador, BA, onde tive muitas experiências novas, ainda muito jovem, queria abraçar o mundo e descobrir tudo. Conheci uma amiga muito querida, Leila Rocha, ativista do movimento de mulheres negras, que numa brincadeira me ajudou a escolher um nome que remetesse ao que eu transparecia (vamos dizer assim), e numa noite ficamos brincando com os termos, e então surgiu o nome, “TransLúcida”, e que sim, tem um cunho polissêmico. Toda a questão da população trans e travesti referente à condição nos dada de desigualdade, nós acabamos, por muitas pessoas, “sendo invisíveis”, “criaturas da noite” e por assim em diante. Só que não, nós existimos, temos necessidades, pagamos nossos impostos, e mesmo assim não temos os mesmos direitos. E a brincadeira com o nome, sendo uma junção de “Trans” e “Lúcidas” (sou uma pessoa trans e sou uma pessoa lúcida!).

Na voz e na composição de Liniker, na música Remonta, a gente ouve sobre remontar o amor e a dor. Vivemos numa sociedade que precisa remontar o amor?

Então, o amor ... vou falar da minha perspectiva com ele (amor). Eu fui/sou, uma pessoa que sempre foi muito querida e amada. Mas dentro de mim ainda faltava o reconhecimento da pessoa que eu era, quando criança. Não sabiam lidar com a minha questão, e ainda não sabem. Digo de minha família (tbm). Nunca fui recriminada pela minha mãe (diretamente), mas algumas amigas dela, as da falsa elite Sorocabana falavam mais do que deviam, ... e já fui tomada como um menino gay logo cedo (pense), e eu nunca me identifiquei como gay, e eu era só uma criança com algumas necessidades, outras opções. Mas não, se tu não é assim não responde assim, tu é assado tem que viver assado (e o assado é pejorativo) ... aquilo me perturbava, lembro de uma vez minha mãe falar “eu criei vc pra ser homem” (no caso hétero). Mas não era ela falando, eram essas outras pessoas. Mas aquilo me incomodava, me sentia muito mal, lembro de um dia que fui curtir a piscina na casa do patrão de minha mãe, e eu me enrolei na toalha fingindo que era um super vestido e comecei a me imaginar que estava numa passarela, desfilando. Na época o patrão de minha mãe me viu, ... e foi um auê, porque eu não poderia estar “imitando” uma mulher... ou não poderia estar “sendo feminino”. Eu tive que controlar minha feminilidade durante muito tempo. Com mais idade comecei a ficar mais tranquila em relação a isso, usava saias deixei meu cabelo crescer, ia pros roles mais alternativos da cidade. Mas mesmo assim, não me identificava como homem gay. E não tive relações próximas de pessoas trans na minha infância. Isso é um problema! Me sentia perdida em relação as minhas próprias questões.
Fui me reconhecer enquanto pessoa trans, Em Salvador - BA, na UFBA. Foi lá que tive o contato com o movimento transfeminista. Sendo então uma pessoa legítima, trans não binária com minha expressão de gênero feminina, lida como travesti, SIM! ... dentro de uma sociedade que não nos legitima. Somos sujeitas à marginalidade, situações de vulnerabilidades e que nos levam a vários lugares, um deles é a prostituição na sua grande maioria das vezes. Isso não é uma coisa ruim, e nem motivo de vergonha... mas, não tem que ser uma única opção. Partindo daí, já somos fetiches sexuais, “seres da noite”, que não tem sentimentos,...e que estão aí pra sexo, somente! … “e cuidado, essas pessoas são “perigosas!”, rs ...Carregamos esses estigmas, infelizmente.
E o amor?
Onde ele vem pra gente?
Quando ele vem?
De que forma ele vem?
... será que ele vem?
Vou te dizer, que eu encontrei o amor várias vezes, em vários lugares. Mas não necessariamente ele tinha forma (sim, sou uma pessoa estranha, diria Deleuze hahahahah).
Uma única pessoa que realmente eu senti algo diferente pela primeira vez, foi com um rapaz estudante de literatura e história, ele tinha um olhar perdido, curioso e inocente. A voz dele era grave mas com nuances agudas e bem leve. Mas lembro de um olhar que ele fez pra mim da qual me machucou mais do que uma apunhalada. Foi na época em que eu me hormonizava. Havia uns meses em que não nos víamos, e quando ele me viu, me olhou com um olhar de estranheza que soava como recriminação\negação. Doeu demais.
Ainda gosto muito dele. Mas a vida segue ...
(Não me hormonizo hoje em dia, porque sentia muitas dores durante essa transição. E decidi adiar esse processo).
Sempre que conheço uma pessoa, que necessariamente é cis, e que possivelmente possa rolar alguma coisa, essa alguma coisa será de fato um sexo casual. Quem que quer estar, ser visto com uma pessoa trans em mais lugares? (Muitas, mas eu não xs encontrei ainda) ...
Não tive aquela fase na adolescência, em que vamos pra festinhas e todas as outras meninas cis são desejadas e não precisam se esconder pra ficar com alguém. Quando surge alguém pra uma pessoa trans/travesti, tem sempre um combinado, é sempre escondido... E isso não me contempla.
Entendendo o amor, na perspectiva de uma pessoa trans, ele fica um pouco difícil de ser admirado, envolvente, amado... É sempre uma grande poesia, uma poesia triste. Onde nossos amores são marginalizados, e temos que nos contentar com isso (só que não). Muitas de nós, não tem o amor da família, não teve o amor da escola, um amor pra se amar. Muitas acabam morrendo sem amar, ou por se amar demais e/ou por deixarem de se amar. E isso é um pouco do que é a nossa construção diária do direito ao amor.

Ella, vivemos então num mundo que impõe um sistema binário de gênero: existe um discurso na sociedade, um sistema de conduta que dita que uma pessoa deve ser homem ou ser mulher dependendo da genitália que possui. No entanto, a realidade é muito mais plural, muito mais dinâmica e muito mais colorida. Qual a sua perspectiva, como pessoa trans não-binária de gênero e com expressão de gênero travesti, sobre a contradição entre a ideia imposta e a realidade como ela se manifesta?

Então, existem alguns países que impõem o binarismo de gênero, mas não são todos. Na Índia temos o terceiro gênero que são as Hijras e que são pessoas legitimas pelo o Estado, temos também as Muxes no México, enfim temos “ene” gêneros pelas sociedades e nos seus períodos históricos.
O Estado brasileiro impõem o binarismo de gênero. Se você nasce com a genitália pênis, você é registrado com o gênero masculino, se nasce com a genitália vagina tu é registrada com o gênero feminino, compulsoriamente.
Ser o que você acredita é maravilhoso, viver onde você não é legítima, é terrível.
Dentro de nossa sociedade faltam muitos avanços, desde políticas públicas até respeito por parte das pessoas cisgêneras com a população trans.
Transgredir uma norma, empoderar-se do que você realmente é, pode acarretar seus empecilhos-tragédias. Só neste primeiro mês de Janeiro de 2016, no estado brasileiro mais de 60 pessoas trans/travestis foram assassinadas. […] O Brasil ainda é o país que mais mata a população trans, tanto por pessoas físicas quanto por falta leis que condenem e leis que nos legitimem enquanto individuo.
E se tu é uma pessoa trans/travesti negra, a sua situação fica ainda pior, num país cheio de “justiceirxs” brancos cisgênerxs racistas, classistas, transfóbicos, lesbofóbicos, homofóbicos, pintando e bordando por aí... quem é que nos ajuda? Aí eu volto pro amor, tem que se amar demais pra se reivindicar aqui. A “pós-modernidade” é cruel.

O que é arte não-binária?

Entendendo que o conceito de “não-binário” são as contra-imposições de dois (binária de gênero - homem e mulher), e partindo do ponto em que outras possibilidades existem, a “arte não-binária” seria a outra arte (falando assim soa um tanto fantasioso), pra ficar mais fácil, vamos dizer que seja uma mistura de arte contemporânea com o expressionismo abstrato, arte conceitual ... (parara­pororó) onde x artista não teria necessariamente o compromisso institucional. E não há uma mera contraposição entre a arte “figurativa” e a arte “abstrata”, pois dentro de cada uma destas categorias há inúmeras variantes. E aí você acaba entendendo um pouco do que é a arte não-binária, esse ato de se expressar com formas que não precisam ser algo mas que dizem algo.
Mas o que eu posso afirmar é que gosto muito de usar em minhas ilustrações uma estética de xilogravura, que é uma técnica muito usada no nordeste do Brasil. E o que uma coisa tem haver com a outra? Vamos usar eu como exemplo, eu nasci com um pênis fui designado homem, mas me reivindico como pessoa trans, e não binária de gênero, que culmina em não ser nem homem e nem mulher, e sim o que eu quiser dentro de uma diversa possibilidade de gêneros e expressões de gênero. E transferindo isso pro campo artístico, eu recrio as possibilidades do que eu sou, de como me vejo e de como estou.

A música Apologia às Virgens Mães da banda As Bahias e a Cozinha Mineira fala de trajetória, de violência, de opressão... Para você, como que, do preconceito, nasce a violência?

Pela falta de representatividade nos locais de poder, nos locais de transformação social (educação, saúde, lazer…)

Vendo e sentindo seus desenhos, tenho a percepção de que seus traços ora cantam, ora gritam, ora riem, não é? Cantam pra quem? Gritam o que? E do que acham graça?

Cada rabisco é um momento.
Cantam pro vento no fim da tarde, gritam pra lua no meio da noite e acham graça dos dias ensolarados e molhados. Mas é tudo tão relativo.
Cantam histórias que nem sempre são felizes. Gritam tristezas, e acham graça das ondas que tem que ultrapassar, muitas vezes levando “um caldo”.
Quando fico nervosa, começo a tremer e rir (muito). Meu corpo libera adrenalina, e não consigo controlar, e acabo tendo medo do que possa acontecer [...]. Aí, é na prática desenhando ou escrevendo em que eu consigo dosar esses sentimentos.
Tenho dificuldades em me expressar oralmente, referente a como me sinto. Mas acredito que muitas pessoas sejam assim e cada uma acaba encontrando o meio de escape que seja confortável para ela.

Em outubro de 2015 você iniciou a página TransLúcida, Liniker publicou o vídeo Zero no mesmo mês e em novembro As Bahias e a Cozinha Mineira lançaram o disco Mulher. É certo que essa arte ganhou mais, digamos, popularidade, visibilidade nesse período, porém a criação vem de muito antes. Como foi sua trajetória até hoje? O que contribuiu para o nascimento de TransLúcida?

Quando criança eu sofria de espinha bífida, um rolezinho que impede que o intestino funcione, logo, eu era uma criança que não cagava, vivia frustrada e cansada e triste, minha mãe sempre triste por eu estar daquele jeito. Minhas questões internas que não eram respondidas, e sim recriminadas por terceiros. Dores, muitas dores eu sentia, e escondia, pra ninguém ficar preocupadx comigo. Tinha que lidar com a escola, mas a escola não sabia lidar comigo.
Não conseguia ter um bom rendimento nas aulas, mas sempre fui muito atenta e inteligente, mas não para aquele formato escolar.
Tinha que fazer lavagem intestinal toda semana, durante 17 anos, frequentar hospitais, escutar que eu iria morrer se não operasse, ver as piores coisas que uma criança não precisa ver.
Escutar minha mãe chorar, escondida de mim. Ver a atitude mesquinha e covarde do progenitor de minha irmã, que trocou a fechadura da porta enquanto minha mãe havia ido me buscar no primeiro dia de aula com minha irmã de colo, e dar de cara com as nossas coisas na rua. Eu tinha apenas 5 anos.
Escutar deboches das pessoas só pelo fato de minha mãe ser gorda, pobre, solteira com dois filhxs, sendo de dois progenitores diferentes, e os dois abandonaram-na assim que engravidaram-na.
Ter que fingir um comportamento mais masculino e heteronormativo, para que não houvesse mais olhares e dedos tortos para ela.
E mesmo assim eu fui uma criança muito amada por ela, minha mãe.
Minha mãe fala que tentaram me sequestrar algumas vezes na escolinha onde eu estudava, era uma escola/creche de freiras. Eu sempre fui uma criança com os privilégios dos padrões de beleza impostos pela sociedade (branca, loira, olhos claros) e sempre chamei atenção por onde passava.
Quando eu nasci, minha mãe fala que o médico havia pedido minha guarda, assim, na cara dura. Minha mãe se recusou, e ele ofereceu dinheiro, e ela continuou recusando.
Estudei música desde os 7 anos de idade, comecei no canto e migrei para o violão (eu amava o violão). Em algum momento na faixa de 10 anos minha mãe me tirou o violão, lembro que foi horrível pra mim essa situação, e me fez prestar uma vaga numa escola de musica requisitada em Sorocaba, a FUNDEC. Prestei violino, passei com muita facilidade. As aulas de musicalização me atrapalhavam no rendimento de português na escola, eu confundia tudo.
O professor Yassushi, me adorava, lembro dele falar coisas maravilhosas pra mim, referente a energia e a “coisa” que eu passava e que tinha enquanto tocava o instrumento, ele gostava. Mas eu não era só do violino... ficava flanando pelo instituto, foi aí que aprendi a tocar piano, flauta doce e me encontrei em percussão.
Ainda nessa fase, entre 10, 11 anos, minha mãe colocou minha irmã num projeto de resistência negra, o Centro Cultural Quilombinho. Fiquei louca, chorei e chorei falando que queria participar também, e ela só me fez uma pergunta, “você vai dar conta da escola e do violino, junto com o Quilombinho?” Abri um sorriso e disse, “SIIIM!”. Fiquei na FUNDEC e no CCQ, até os 17 anos. Foi a parte boa da minha infância.
Passei numa faculdade privada, cursei Pedagogia com ênfase em Educação Especial.
Decidi mudar de faculdade quando percebi que eu não teria professores para me orientar no meu TCC, o tema que eu havia escolhido era “psicopatia infantil”.
Fui pra UFSCar onde continuei cursando Pedagogia, e meu foco já era outro depois de um tempo. Lecionei durante dois anos numa escola municipal na periferia de Sorocaba, onde me destaquei com algumas ações de cunho social dentro do meio, fazendo algumas denuncias articuladas com a população local referente à escola.
Desenvolvi alguns projetos onde fui parabenizada pela secretaria de educação de Sorocaba … A diretora da escola não gosta muito de mim. Eu e uma outra professora (cis) negra, fomos perseguidas (ela mais do que eu).
Junto com alguns amigxs criamos o “Revolta Zen da Costura Coletiva” onde articulávamos com diversos coletivos de Sorocaba e região, fomentar a arte e a educação.
Fui pra Bahia, Salvador, me encantei, e lá fiquei.
Frequentava a UFBA, onde dei inicio a minha transição, e aos estudos de cultura de gênero e sexualidade – conhecendo o movimento Transfeminista.
Morei durante três anos, passei por muitas coisas. Conheci pessoas maravilhosas, uma delas é a nossa querida Marina Garlen, artista ativista, onde tive o prazer de ter executado um trabalho para o Centro de Referencia LGBT onde ela era uma das gestoras. Uma ilustração para a divulgação de um curso de Italiano para a população T.
Meus trabalhos com ilustrações sempre foram neste campo, em questões de gênero e sexualidades, e sempre muito particulares. Daí já comecei a ilustrar para pessoas do mestrado, ilustrava suas dissertações. (Aliás, dissertações maravilhosas que super recomendo).
Passei três meses morando e trabalhando na ilha de Moreré, sul da BA. Um lugar maravilhoso. Cheguei lá de carona de barco, havia um colchão de casal onde fui deitada a viagem toda. Fiquei deitada porque estava com vergonha, aí fico paralisada quieta num canto. Teve uma tempestade onde achei que iriamos quebrar o barco e afundar, mas deu tudo certo. Chegando em terras quentes, fui conhecer minha casinha. Ela era de madeira e palha, linda. Meu trabalho se constituía em cuidar de uma biblioteca, ficar responsável pela decoração dos chalés (a decoração só podia ser com coisas que haviam no jardim), cuidar de 3 cachorros enormes e fofos, e plantar e plantar e ver as plantas crescerem.
Era tudo muito maravilhoso, até que comecei a conhecer um pouco mais da história da vila Moreré. Rolava um forte turismo sexual com as meninas menores de idade, e isso começou a me fazer muito mal. Cogitei de envenenar a pessoa por trás de tudo isso, mas era loucura. Ele não era o único (e quem sou eu pra fazer ou pensar em algo do tipo?), e acabei cogitando preferir sair de lá.
Comecei a ter meus dois pés parasitados por bichos de pé, milhares deles. Foi aí que realmente tive que voltar pra Salvador pra resolver isso, e quem disse que minha patroa queria me liberar? Ela já era uma senhora, e se recusou a me deixar partir, falando que sempre quis ter um filho como eu (oi?!). Se recusou a me pagar, e me tratava no masculino, e ainda me fez ter uma consulta com uma psiquiatra que estava de férias por lá, porque não entrava na cabeça dela que uma pessoa quisesse sair do paraíso, mas no fundo, no fundo, ela queria uma companhia, mas não iria ser eu. A consulta foi num barquinho no meio do mar. Conversamos sobre muitas coisas, foi bem legal. (parara pororó) [...]
De volta a Salvador, tenho a missão de ir nos hospitais, e nenhum lugar queria ou poderia me atender. Fingi ser um amigo pra poder usar seu plano de saúde, onde fui atendida (muito mal atendida). Peguei uma infecção nos locais onde havia milhares de bichos de pé, com suas bolsas repletas de suas filhas bichinhas de pé. Foi um auê, e o 2 de fevereiro que é a celebração mais maravilhosa que eu já vi em toda a minha vida, estava chegando, e eu não queria estar daquele jeito. Foi aí, que uma amiga que morava comigo na época, falou que seu namorado iria me segurar pra tirar os bichos (aloka, imagina?). Eu fiquei morrendo de medo. E resolvi eu mesma tirar, eu estava numa situação onde eu não podia andar, os filhos dos bichos de pé iriam nascer a qualquer momento, e tudo que já estava ruim, iria piorar ... peguei uma tesoura uma agulha e alho, comecei a cortar as regiões afetadas no meu pé (que era quase todo). Arranquei todos os bichos e suas bolsas, e taquei alho. Foi uma aventura, sem anestesia (uma vez fiz um canal em um dente sem anestesia também, o dentista não acreditava). [...] Tudo a tempo de participar da celebração à Iemanjá.
Em um outro momento ainda vivendo no morro, Alto da Alegria, eu estava voltando para casa, era madrugada, quando um grupo de meninos entre 14 e 19 anos começaram a me “peitar”. Eu estava farta das piadinhas, e resolvi comprar a briga, levei um tapa na cara do mais velho, e revidei (adrenalina liberada eu fico cega), ele não acreditou e veio pra cima com armas, falando que iriam me matar. Um único rapaz que estava com elxs, segurou o agressor e pediu pra eu sair e que não iria acontecer nada comigo.
Saí linda, mas com o “cu na mão”, adrenalina a mil.
Pra minha sorte, o “dono da boca” que por sinal era do lado de minha casa, me curtia, me achava gente boa. Foi lá trocar ideia com os moleques, e a paz reinou (só que não). Até um dia que esse mesmo dono da boca, se meteu em um roubo grande, fazendo com que subisse umas 5 viaturas repletos de policiais armados até a nuca. Em que porta elxs batem primeiro? Na minha. Pedem pra minha amiga descer, e entrar no beco. A maluca vai, eu desço correndo atrás dela gritando que ela não vai a lugar algum (Imagine colocar a menina em risco?).
Foi aí que um policial se sentiu no direito de apontar sua pequena grande arma bem na minha cara, mandando eu calar a minha boca. Uma policial mulher se sensibiliza com a situação e pede pra minha amiga voltar pra casa junto comigo. Voltamos e continuamos bebendo nosso vinho.
Em um outro momento eu estou chegando em casa bastante bêbada e me vejo que todas as minhas coisas foram roubadas, e o que mais me doeu perder foi o violão (tinha uma ligação forte com aquele instrumento). Nessa mesma noite eu desmaiada sofro um estupro dentro de casa, na minha cama.
Resolvo mudar de casa, vou pro bairro ao lado na esperança de viver com um pouco mais de segurança, enfim...
Me mudo pra um predio de 3 andares, em baixo um senhor branco cisgênero ex-jogador, bem agressivo e cheio de preconceitos. No meio eu (travesti) uma amiga (cis, lésbica) e um amigo (cis, gay). E em cima de nós a família do senhor problema, que também eram um problema. Logo no primeiro dia de mudança, fomos recebidxs com agressões (havia um amigo cis negro, que também não ficou de fora), ok, ia ser mais uma luta.
Todos os dias eu e meus amigxs escutávamos agressões verbais e ameaças. Conversinhas com xs vizinhos de que ali “é um ambiente familiar” (pense você na sua cozinha, linda fazendo uma comidinha com amor bem gostosinho prxs amigxs, aí você escuta uma conversa dessas? é de “cair o cu da bunda”). Nosso querido vizinho e senhorzinho já ameaçou a menina que morava comigo, com uma arma de fogo.
Nossxs amigxs negrxs eram hostilizadxs sempre que iam em casa. Por incrível que pareça o senhor não me perturbava diretamente, me perturbava perturbando a paz e a integridade das outras pessoas, já xs moradores de cima, eram piores comigo, deslegitimavam meu nome social, atacavam ovo em mim quando eu estava na sacada de casa olhando pro nada, inventavam calunias, ficavam me hostilizando e ameaçavam jogar pedaços de ferro em mim. Uma vez eu estava fumando um cigarro na sacada, quando vi tinha um dos filhos dela que faz “Direito” me filmando (aí eu me pergunto pra quê? pra falar que é maconha? hahaha) fotografaram minha amiga com sua parceira namorandinho na sacada, pra falar que elas estavam fazendo atos obscenos em área pública (só que era a nossa sacada e era só uns beijinhos). Perdíamos dias de trabalho tendo que ir na delegacia [...] e pra nossa sorte elxs eram amiguíssimxs dxs juízes, delegadxs e policiais dali do bairro.
Foi um verdadeiro “deus nos acuda”.
[...] Na delegacia, eu tinha vontade de morrer, eu não podia ser quem eu sou, eu tinha que ser o que constava em meus documentos. No máximo, permitido por “elxs” eu era um homem cis gay, que dentro disso todas as minhas acusações de transfobia eram em vão. Enfim…
Muitas coisas aconteceram, algumas boas outras não, e resolvi me mudar para São Paulo, onde dei início à página TransLúcida, e desde então alguns trabalhos foram surgindo. Muitos que não pagam (hahaha, não sei o que o povo pensa?) mas estou gostando da ideia de ser o que eu quiser atravez dos meus rabiscos.

Pra encerrar, posso pedir uma ilustração desse nosso diálogo? Muito obrigada!

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