entrevista escritor

Entrevista com Yuri Pires, escritor de Fábrica de Heróis

domingo, abril 10, 2016Mari Mendes



Yuri Pires é o sertanejo da literatura que escreveu O Homem e o seu Tempo e  A Fábrica de Heróis. Nascido em Recife, hoje mora em São Paulo, onde também é professor de Português. Você pode acompanhá-lo nas redes sociais, tá aqui o link.

Nessa entrevista ele fala da relação com a escrita, sobre rótulos, sobre referências artísticas. Para mim salta aos olhos o pensador, o artesão das palavras. 

Seu livro de poemas, Artifício, será lançado ainda neste mês de abril pela editora Intermeios.



Quando nasceu sua paixão pela escrita?

Na verdade, não sei se eu daria o nome de paixão ao que sinto pela escrita. Gosto bastante de escrever, mas não acho que se crie paixão, que é coisa de ser tátil, espontânea, todo o contrário da literatura a que me proponho, da minha concepção de arte como artesanato, como artifício – como digo no poema. Eu sou meio espantado com a palavra, na verdade, e essa descoberta eu fiz há pouco tempo, uns anos apenas.

O que acho é que a palavra é a maior invenção humana, a única tecnologia perfeita. Não há nada, vivo, morto, passado ou futuro, que não seja nomeável. Aliás, pode-se virar a realidade pelo avesso através das palavras. Tudo porque a palavra é vazia e farta. Um amontoado de letras significa, em si, a priori, nada. Ao mesmo tempo, o mundo cabe em uma palavra só. Por isso a frase chega muito diferente para cada um que a lê ou a escuta, porque cada palavra tem peso e significado diferente para cada leitor; na escrita, ainda mais, porque pode-se eliminar por completo a entonação, o ritmo, a pausa, deixando para o leitor todo o peso da interpretação. É um dos motivos pelos quais não recito meus poemas e é o motivo principal de meu alumbramento com a escrita. Pronto, alumbramento, achei a palavra.


Quando decidiu ser escritor? Como foi esse processo?

Decidi ser escritor no momento em que terminei a leitura de Ensaio sobre a cegueira. Pensei: e isso é possível? Eu quero tentar.

Desde criança gosto de arte, queria ser músico, jogador de futebol, ator, qualquer coisa assim. No teatro não resisti à primeira aula, me senti meio ridículo. Para o violão, a coordenação motora não chega que dê para ser mais que amador, para jogador nunca fui sequer o melhor de minha rua, jamais pus os pés em uma peneira. Mas sabia que eu era capaz de fazer arte, apenasmente precisava de uma expressão a que eu adicionasse esforço para atingir a técnica necessária. Primeiro foi a poesia, tateante, chata, meio dogmática meio portuguesa, autorreferente, autocentrada, artificialmente revoltada; logo após, a prosa. Essa primeira poesia foi toda para o lixo, mas em abril lançarei Artifício, meu primeiro livro de poemas, pela editora Intermeios. Julgo que cheguei a algo interessante, que tenho algo a dizer.


Você se considera um “sertanejo da literatura”? O que isso significa para você?

Esse conceito quem criou foi meu amigo Jorge Rocha (que prefaciou meu último livro Fábrica de heróis). Ele diz isso de mim, da minha literatura, e não discuto com prefácios e críticas ao meu trabalho.

Nasci e me criei no litoral, no Recife. Apesar de minha identificação total com o sertão, onde passei muitas férias, por onde viajei bastante durante os anos de faculdade, onde nasceram meus avós, minha mãe, não sei o que é viver a estiagem, a seca, o que é buscar água com uma lata na cabeça, nunca vivi isso. Ouvi muitas histórias, já vi caveira de gado em beira de estrada, já ouvi o medo do não chover. Faz parte de uma memória muito mais coletiva que individual.
  
No entanto, de certa forma, Jorge tem razão, porque evoco esse ambiente na minha literatura e porque foi na fala sertaneja de minha avó que escutei muitas histórias que me marcaram; além de lembrar algumas noites passadas em Afogados da Ingazeira e em Taperoá, ouvindo causos de comadre florzinha, curupira, pé de espeto, o diabo da Gameleira, etc. 

Tem essa coisa da sequidão do dizer, também. Não acho que a palavra deva enfeitar nada. Enfim, recebo como um elogio dos grandes.


Quais são suas referências artísticas?

São muitas. Eu gosto muito de cinema, teatro, música, tento deglutir um pouco de tudo que é expressão de arte. Para não me alongar, entre não escritores: Caetano Veloso e Glauber Rocha. Com este último tive contato já adulto, mas de Caetano sou audiente desde muito menino. As leituras do Brasil a que se propõem me marcaram bastante, estão bastante presentes no que penso e, consequentemente, no que escrevo pensando em nosso país especificamente.

Dentre poetas, tudo se resume a João Cabral, Drummond e Orides Fontela. Essa última descobri recentemente, fui apresentado a sua poesia através de um curso de literatura brasileira ministrado pelo professor Ivan Marques, na USP, pelo que serei sempre grato a Ivan. Orides é, para mim, gigante. Mas é João Cabral a grande referência.

Dentre os prosadores, John dos Passos, Saramago e Graciliano. Três revolucionários da estrutura narrativa, três gênios na minha opinião. Há Osman Lins, há Gilvan Lemos, há Garcia Marquez, há Faulkner, há Guimarães Rosa, etc, mas as referências são esses três. Literatura é profundidade e impacto, um mergulho na garganta de um penhasco. Não dá para continuar o mesmo depois de ler Vidas Secas ou U.S.A ou Ensaio sobre a cegueira. 

Para mim, obra de arte é aquilo que sacia. Não dá pra fazer maratona de Godard, emendar um livro de Graciliano no outro ou ler toda a poesia de Orides Fontela numa sentada só. É necessário um certo tempo para matutar e digerir a coisa toda.


No livro “O Homem e o seu tempo” você trabalha com a questão da memória do período militar no Brasil. Por que a sociedade brasileira ainda não se reencontrou com seu passado para punir seus culpados?

Precisamos digerir nosso passado autoritário. Não se trata de reencontrar. Há reencontros todos os dias: quando Amarildo é torturado, assassinado e o seu corpo some dentro de uma instalação da força policial do Estado, isto é um reencontro entre nós e a ditadura militar; quando Rafael Braga passa anos preso por portar duas garrafas de detergente, ou coisa parecida, em meio a uma manifestação, é outro reencontro, e nestes dois casos há ainda o reencontro com nosso passado escravocrata. São permanências, coisas que vamos deixando passar, fingindo que não é com a gente, tirando o corpo fora.

A punição dos responsáveis, civis e militares, pelas torturas, assassinatos e desaparecimentos, apesar de fundamental para que se faça justiça, não basta, como não basta a punição de um assaltante para que se acabem os assaltos. É fundamental combater a veia autoritária e conservadora de nossa sociedade. A resistência a PEC das empregadas domésticas, que chegou com um século de atraso, só demonstra como há parcelas significativas da sociedade que ainda não engoliram a abolição da escravatura; nós vivemos em um país em que policiais militares, funcionários públicos, assumem como lema que “bandido bom é bandido morto” e fica por isso mesmo, não são punidos. Só fica por isso mesmo porque parcela significativa da nossa sociedade concorda com essa aberração. É preciso olhar o espelho, somos o que abominamos: racistas, violentos, ressentidos, autoritários. A ditadura só foi possível, e por tanto tempo, porque parcela significativa de nossa sociedade concordava com seus pressupostos.

Ou tratamos disso ou ficaremos deitados eternamente em berço esplêndido à espera de um Batman tropical que - nos tempos atuais é até importante frisar - não existe. 


Você inaugurou, com a Fábrica de Heróis sua literatura no terreno do realismo fantástico. Por que escolheu o jogo entre o cotidiano tangível e o irreal e extraordinário?

Não gosto desse termo, o acho pejorativo. É um olhar europeu que nos quer exóticos, por motivos ideológicos e comerciais. Na verdade, toda narrativa pressupõe um contrato entre o autor e o leitor, no qual este último jura solenemente acreditar na coerência interna daquela literatura. Me diga: o que há de real na história de Rambo? Aquilo é pura fantasia que só cabe na cabeça de quem acredita que os estadunidenses são enviados de deus para colonizar e educar o mundo nos princípios dos valores do bem universal. Outra pergunta: o que há de fantasia em Game of Thrones? Tire os dragões, e a série torna-se a descrição, perfeitamente realista, dos bastidores da política da civilização ocidental. 

Fábrica de heróis é um livro sobre relações humanas, fé cega e faca amolada. É uma tentativa de ler a parte do mundo que enxergo, de desnudar características nossas de que precisamos nos livrar com certa urgência. Esse Brasil em que todo homem é candidato a patriarca, de pacíficos violentadores, precisa ser lido e relido, e é o que tento nestes contos, colocar o espelho na nossa cara: nós somos uma constante fábrica de heróis. 
O que acontece é que o melhor da literatura latino-americana incorpora elementos da oralidade de nossa gente, da tradição oral dos povos originários, dos povos africanos, que são fundantes de nossa memória coletiva. Isso exerce muita influência sobre mim. O que me incomoda é que um homem transformado em inseto seja considerado metáfora e uma peste de insônia seja considerada mágica; a diferença é o prestígio do registro, percebe?

Talvez você goste

0 comentários

Digue...

Formulário de contato