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o lugar das bailarinas negras no ballet clássico

domingo, abril 03, 2016Thabata Lima Arruda

Misty Copeland

Dancei ballet dos 8 anos aos 15 anos de idade e por inúmeros e contraditórios acontecimentos, eu parei. Porém, aos 26 anos retornei ao ballet, com outra finalidade, com outro apreço e com outro tipo de afeto a dança. E falarei muito sobre isso ainda. 

Eu me dedicava, ensaiava, sonhava e nunca, em momento algum, pensei que, de repente, a cor da minha pele poderia de alguma maneira influir em minhas capacitações. Afinal, eu era tão magra quanto qualquer garota, eu era tão flexivel quanto qualquer outra bailarina da minha escola, eu não me colocava limites. Eu ensaiava, caso algo não saísse de maneira adequada. 

Hoje, ao retornar ao ballet, ao ter tomado consciência de tantas coisas nesses anos que me separaram da dança, me vejo isolada, única. Sou negra e o ballet é um funil seletor. 

Como muitas garotas negras eu alisei o cabelo, e passei por todo tipo de resistência em me aceitar. Após um árduo período a compreensão acerca das minhas raízes e importância das mesmas começaram a surgir e a me orgulhar. Meus cachos andam soltos, armados e eu os amo. Entretanto, esse é apenas um dos aspectos que uma garota negra transita pela vida. 

Me sinto surpresa, enganada e atónita, toda vez que descubro algo sobre mim mesma que eu não sabia, ou quando me dou conta do espaço limitado dentro de uma sociedade que ainda possui a cultura do racismo impregnada. 

Ao iniciar as minhas pesquisas sobre ballet adulto cheguei nesse artigo do site Dos Passos de Bailarina, sobre bailarinas negras e o escasso espaço nas grandes e tradicionais companhia de ballet ao redor do mundo. Acreditem, não foi ingenuidade, eu tive aquela breve epifania e pensei comigo: onde estão os bailarinos negros? 
De fato, são pouquíssimos negros, dentro da história de mais de 300 anos do ballet clássico, que alcançaram altos postos. As justificativas sempre são pautadas em aspectos físicos, seja a própria cor da pele, quanto ao tipo de corpo e musculatura que um negro pode alcançar. 

Ao me deparar com toda esse turbilhão e buscar cada vez mais informações conheci Misty Copeland, a primeira negra a ocupar o cargo de bailarina principal no American Ballet Theatre. Companhia de Nova Iorque que possui 75 anos de história. 

Em seu documentário, A Ballerina’s Tale, fica clara a importância do lugar que Misty ocupa. Ela causou uma pequena, porém significativa, revolução dentro da comunidade negra. Após a sua interpretação inédita em O Lago dos Cisnes, ela mostrou que representatividade é importante, pois nunca antes o público do ABT foi tão heterogêneo (mesmo pouco ainda) após a sua popularidade. 

Misty, possui total ciência de sua conquista e é grande divulgadora do racismo velado que existe em muitas companhias de ballet ainda hoje. São bailarinas como Misty, Precious Adams e tantas outras que, aos poucos, abrem caminhos para jovens bailarinas negras se inserirem e sonharem. É um longo caminho, que envolve diversos fatores, mas que é necessário e urgente.

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