cesárea comportamento

Diálogo de uma medicina cesarista

segunda-feira, dezembro 19, 2016Mari Mendes



A grávida entra na sala com seu passo desjeitoso. Sozinha, sente suas dúvidas, tem hormônios em ebulição e o estado de alerta de fêmea que protege sua cria.

Barriga protusa, meio bamba, senta com as pernas bem abertas. Nas mãos documentos, exames, papéis que trazem os dados primários. Doutora séria examina papéis, faz perguntas, olha bem no fundo dos olhos da grávida, pesca o temor e a insegurança, dois grandes bagres fedorentos, e com eles em cima da mesa do consultório vai iniciando sua premissa dramática.

Glicemia controlada. Bom. Engordou muito desde a última consulta. Atenção. Depois para perder é bem mais difícil… olhar sério, expressão de desagrado. A grávida sente seu corpo todo errado, pensa nas deformações do pós-parto e a maré da auto-estima vai baixando a níveis preocupantes.

A médica continua com seus bagres: a pressão arterial está melhor. O suspiro de alívio da grávida não tem tempo de sair dos pulmões limitados. Mas ainda oferece risco. Cuidado. Vamos manter a dose do remédio, fazer mais um exame. Sente muito cansaço? Sim. Barriga pesada, dificuldade de andar, inchaço nas pernas, barriga grande, muito grande. A grávida se identifica com o que sente e amplia seu sofrimento com a indução. Difícil ter que esperar mais,não é? Dificuldade para dormir, medo da dor. Normal. É muita dor mesmo.

Vamos ouvir o bebê? Deita na maca, a grávida de pança saliente e amor próprio diminuído, tem seu barrigão apalpado, o som do coração do bebê toma o lugar do desconforto que nada pelo ar. Medição da barriga, com fita métrica e apertão no estômago, bebê remexe desconfortável, grávida olha para o teto, desconfortável, o consultório parece pequeno para tamanho constrangimento.

Barriga grande demais! Macrossômico. Palavrão navega entre as paredes, infla o receio, desconhecido monstro marinho vai devorando a calma. Se eu fosse você faria cesárea hoje! Muito sofrimento parir um bebê gigante. No último ultrassom tinha 3 quilos apenas, a grávida solta um argumento, barquinho de papel, com a voz fina. Ele provavelmente já engordou um quilo nesta última semana! Eu faria cesárea o quanto antes. Barco de papel é engolido pela couraça preta majestosa.

Vem o exame de toque, luvas de borracha, penetração crua e esterilizada, olhos no teto, incômodo, vergonha. Não tem dilatação. Ele pode crescer mais ainda. Vai ficar gigantesco esse teu bebê. O bebê sereno em seu cesto de vime, visão da grávida de seu rebento, sua esperança e amor, seu gancho onde se prende para enfrentar tudo, ele vai crescendo, engordando, agigantando até o corpo se tornar muito maior que o vime frágil e ir afundando na ansiedade. Médica dá de comer aos bagres com a imagem deturpada do neném, que antes esperança e amor, agora onda de terror descomunal, veículo de sofrimento vindouro.

Preparado bem o terreno, contexto e conteúdo da cena preparados, ela passa para o monólogo certeiro. Eu com certeza faria uma cesárea. Não há porque esperar. Bebê muito muito grande, provavelmente chegue aos cinco quilos. O parto seria um sofrimento muito grande para você. Cesárea é muito melhor. Eu tiraria hoje.

Pausa para olhar penetrante. Grávida com olhar de pânico, à beira do choro. Não que seu bebê esteja em sofrimento, não se trata disso, mas eu sinto um pressentimento, entende? Muita experiência permite sentir certas coisas. Acho mais seguro tirar agora, ele já tá pronto, grandão que está. Você pode esperar e passar no hospital quando as dores começarem, mas eles vão forçar o natural, não vão querer te operar. Eu posso te operar.

Mais do olhar penetrante. Mais pânico da grávida. Se você tiver condições financeiras posso operar amanhã mesmo. Sem falta a gente já tira e evita qualquer coisa que possa acontecer se você esperar.

Quanto seria, doutora? Enquanto espera a resposta em fração de segundos, revê receitas e despesas.Dois mil e quinhentos para você. Veja bem, não é uma questão financeira, é o melhor para você e seu neném. Grávida pensa em valor. Medo. Cálculos desesperados. Posso parcelar. Médica diz isso pausadamente com o tom de voz tranquilizante.

A rede lançada pescou mais uma. Passa número de telefone, dá orientações sobre jejuns e preparativos, assegura a rapidez do procedimento. A grávida compra a cirurgia, porém a sensação é de levar brindes variados: segurança, ausência de dor, praticidade.

Grávida deixa o consultório. Ato encerrado, a doutora anota a cesárea na agenda e na planilha de controle financeiro.

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